sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Senna

 




São poucas as personalidades que conseguem atingir o status de popularidade quase unânime a qual chegou Ayrton Senna, piloto excepcional de Fórmula 1 morto em 1994 em um trágico acidente no trajeto de Ímola. E ao assistir o documentário “Senna”, dirigido por Asif Kapadia, pode-se compreender o porquê. Mais do que ser o campeão de cada domingo, Ayrton Senna era a imagem do brasileiro comum que brilhava no exterior e que trazia esperança e alegria a toda uma nação carente de heróis. E justamente por isso, não deixa de ser adequada a declaração concedida por uma pessoa comum a um repórter durante o funeral de Ayrton: “Esse povo precisa de saúde, educação e alegria... e a alegria foi embora”.

Tratando de reconstruir a trajetória do tricampeão mundial através de imagens de arquivo e depoimentos, “Senna” conta desde a ascensão do piloto no automobilismo, até a sua trágica morte no GP de San Marino. Não esquecendo de retratar, no processo, pontos cruciais da vida profissional do piloto, como a famosa rivalidade entre Senna e Alain Prost, e os problemas políticos que manipulavam (e que manipulam) as corridas de Fórmula 1. Felizmente, o filme, que tinha tudo para se transformar em uma obra maniqueísta e santificadora (ele foi feito com a influência direta do Instituto Ayrton Senna), consegue a proeza de ser bastante imparcial no processo. Assim, ao contrário do que poderia se esperar, o biografado não é tratado aqui como um santo intocável, mas como um ser humano comum, sujeito à qualidades (sua humildade e integridade ímpar) e a defeitos (sua competitividade exacerbada e seu perfil rancoroso, algo que fica evidente na cena em que ele joga Alain Prost para fora da pista, numa atitude bastante antiesportiva).

Aliás, a rivalidade de Senna e Prost acaba sendo uma das principais forças-motriz que tornam o documentário tão interessante. Figurando como duas pessoas excepcionalmente talentosas naquilo que faziam, Senna e Prost acabaram assumindo a única posição possível para dois pilotos do mesmo nível que corriam contemporaneamente: a de nêmesis um do outro. E mesmo que em alguns momentos, o filme ameace pintar Prost como um vilão (sem precisar abusar dos clichês, o corredor francês era o “protegido” do então presidente da Federação Internacional de Automobilismo) a verdade é que ele sempre oferece elementos para que compreendamos as motivações de um e de outro, não permitindo a ideia simplista de "mocinho vs. mal-feitor". Inclusive, se Alain Prost teve atitudes prepotentes ao descobrir que havia um rival à altura, é curioso notar que Senna também agiu de forma semelhante quando o jovem Schumacher despontou...






Permitindo também que o público leigo tenha acesso a conhecimentos técnicos da Fórmula 1 – que, querendo ou não, é um esporte profundamente elitista – “Senna” consegue funcionar ainda como um instrumento de protesto e de denúncia sobre a politicagem que existe por trás das pistas (e que, de certa forma, já decide quem será favorecido antes mesmo das corridas começarem). E quando Senna desponta como uma voz que se insurge contra as regras do sistema, a sua imagem se torna ainda mais passível de admiração (afinal de contas, como não simpatizar com alguém que tem coragem para desafiar os manda-chuvas?).

Sendo um pouco raso no que tange à vida pessoal de Ayrton Senna, o filme se limita a poucas imagens caseiras e algumas referências aos seus relacionamentos com Adriane Galisteu e Xuxa (incluindo, naturalmente, a sua famosa participação no programa da apresentadora, e a sequência de beijinhos que, profeticamente, terminou no “Feliz 93!”). Entretanto, isso pode ser entendido não como com um tropeço do filme, mas sim como a retratação fiel da personalidade de uma figura workaholic. Ayrton era uma pessoa que vivia para as corridas, sendo os seus demais relacionamentos pessoais meras distrações momentâneas.





E, claro, o documentário ganha pontos pela coragem com que acompanha a intimidade de Ayrton durante aquele trágico final de semana em Ímola. Por conta dos eventos que antecederam o domingo, temos a oportunidade de acompanhar um Ayrton Senna profundamente horrorizado com os acidentes que envolveram Rubens Barrichelo (que escapou sem ferimentos graves), e Roland Ratzenberger (que faleceu na pista, pouquíssimas horas antes de Senna). É absurdamente palpável o incômodo e a incerteza do nobre piloto naquelas últimas horas, algo que se torna ainda mais doloroso para o espectador quando o documentário convida este para acompanhar Ayrton em sua última volta pela pista, os últimos metros de sua vida.

Tomado de intenso realismo, “Senna” é um documentário que consegue refletir a personalidade e a trajetória de seu retratado com maestria, sendo, assim como ele, um indiscutível campeão em seu meio. Capaz de evocar sentimentos até mesmos em gerações mais jovens que não tiveram a oportunidade de ver Ayrton correr, o filme, desde já, se apresenta como uma das melhores obras cinematográficas feitas sobre um atleta brasileiro. Senão a melhor.


Senna

De quem? Asif Kapadia
De onde? Inglaterra/Brasil
De quando? 2010
Onde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆☆☆



Na dúvida, assista o trailer:





quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

 


"Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" é um filme simples, mas que encontra em sua simplicidade a sua beleza. Também é um filme equilibrado, que não procura apelar para o melodrama para criar conflitos artificiais. A própria situação em que o protagonista se encontra - ainda que pareça talvez um pouco 'adolescente' demais para os mais maduros - já é o grande conflito por si só. E o filme sabe trabalhar isso com delicadeza, fazendo nos importar com os personagens, ao mesmo tempo que nos dá um vislumbre do 'outro', do 'pensar nas necessidades do próximo'. Tanto físicas, mas também emocionais.

Leonardo é um adolescente normal, ainda que não seja um adolescente comum. Cego, o pobre garoto tem como melhor amiga e confidente a menina Giovana, que sempre o acompanha na volta da escola. Com a chegada no colégio de um novo aluno, o simpático Gabriel, a dupla de amigos logo vira um trio, o que acabará desequilibrando as relações entre os personagens. Desde o ciúmes e o sentimento de deslocamento crescente da garota, até as emoções mais íntimas que Leonardo vai descobrir dentro dele e que ele sequer sabia que possuía.

Fazendo valer uma sessão dupla com o americano (e, talvez, um pouquinho mais poético, mas tão belo quanto) "Me Chame Pelo Seu Nome", "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" é um romance adolescente LGBT que não problematiza a questão, antes a trata como algo natural. Demonstrando uma maturidade sobre si próprio invejável para a sua idade - talvez decorrente de suas próprias 'limitações' - o jovem Leonardo não entra em conflitos em relação à essa descoberta. Antes sua angústia se refere a incerteza de não saber se é correspondido - o que é normal com qualquer adolescente, mas que é agravado por jamais poder contemplar as feições e as expressões de seu amado.





Nesse sentido, aliás, o jovem Ghilherme Lobo faz, de longe, a melhor atuação do longa, conseguindo compor a vulnerabilidade do personagem, a impaciência com relação a superproteção dos pais, o seu desejo natural por independência, a dor de estar ciente de ser alvo de bullying e de piadinhas no colégio, e a confusão de sentimentos de alguém envolvido em seu primeiro amor, tudo isso nos convencendo da cegueira do personagem (na vida real o ator não é cego!). Infelizmente, por mais que o resto do elenco se esforce, não consegue acompanhar o nosso protagonista em termos de qualidade de atuações - sendo as cenas das discussões com os pais, inclusive, os momentos mais fracos do longa - o que também não é facilitado pelo roteiro, que traz alguns diálogos que soam demasiado artificiais (ou pouco naturais).

Um pecadilho que é perdoado pela força nos sentimentos que o filme carrega, e na lição de humanidade e solidariedade que ele passa, além de ser, sim, na essência, um longa completamente romântico, ainda que tímido. Um dos bons momentos do cinema nacional dos últimos anos.




Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

De quem? Daniel Ribeiro
De onde? Brasil
De quando? 2014
Onde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆☆


Na dúvida, assista o trailer:




segunda-feira, 21 de setembro de 2020

A General





Joia preciosa do cinema mudo, “A General” está para Buster Keaton o que “Tempos Modernos” e “O Grande Ditador” estão para Charlie Chaplin. Roteirizado e dirigido pelo protagonista (em companhia de Clyde Bruckman), o longa-metragem se inspira de forma bem-humorada na real história do roubo de uma locomotiva ocorrido durante a Guerra Civil Norte-Americana para contar um road movie de situações bizarras que usa e abusa do humor físico de Keaton, proporcionando gags e cenas que até hoje são facilmente reconhecidas por cinéfilos. Pouco reconhecida a época de seu lançamento, “A General” sobreviveu ao teste do tempo e, hoje, se consagra como uma obra-prima da comédia feita nos primórdios do cinema.

Com uma estrutura de roteiro que certamente serviu de modelo para a do recente “Mad Max – Estrada da Fúria” (ou isso, ou a semelhança é espantosa!), “A General” conta a história do maquinista Johnny, que, pelo seu serviço essencial nas estradas de ferro do Sul dos Estados Unidos, é impedido de se alistar entre os insurgentes da revolução. Sua negativa é vista como covardia por sua namorada (Marion Mack), e por seu sogro (Charles Henry Smith). Entretanto, quando as forças do Norte roubam a locomotiva-título, Johnny toma a iniciativa de resgatá-la, também se apropriando de uma maria-fumaça e dando início à uma hilária perseguição pelas estradas de ferro norte-americanas.




A grandiosidade da produção pode vir a espantar quem porventura associa filmes-mudos com filmes pobres. O capricho na direção e os bons enquadramentos fazem valer o orçamento investido no filme. Cenas como a das locomotivas cruzando os campos de batalha, a queda de uma determinada ponte (uma filmagem real!) e a própria batalha campal que toma conta do terceiro-ato da trama e que envolve centenas de figurantes, marcam pela sua impressionante beleza estética. No mesmo sentido, se em “Tempos Modernos” temos Chaplin nadando por entre as engrenagens, “A General” eterniza a figura de Buster Keaton como o sujeito sentado na barra de ferro de um trem em movimento, personagem e máquina fundidos em um mesmo ritmo, mesclando humor despretensioso e uma certa melancolia. Sinais do talento de Buster Keaton não só como ótimo comediante, mas também como um grande artista visual.

Não que o lado comediante de Keaton não tenha lugar em “A General” e, aqui, sua hipnótica postura em cena que mais parece uma dança conjugada com sua habitual inexpressividade impassível aos acontecimentos atinge seu ápice. A perseguição em si, repleta de gags e armadilhas montadas por ambos os lados do conflito garante os melhores momentos da trama, divertindo pela variedade de situações inusitadas. O filme possui um humor puro, ingênuo, porém genuinamente engraçado, que remete a cartoons ou desenhos animados – ou seriados como “Chaves” – o que é ressaltado pelos próprios enquadramentos de direção. Com sua coreografia minuciosamente planejada para interagir com o que acontece em cena, Keaton faz uma das comédias mais engenhosas de humor físico já feitas.




Leve, divertido, inspirador, "A General" é um longa que sempre vale a pena visitar, revisitar ou até mesmo conhecer. Para os cinéfilos, “A General” é uma parada obrigatória. Para aqueles que estão começando a se interessar por filmes clássicos e cinema-mudo, “A General” é um ótimo começo. Recomendadíssimo para todos os tipos de público e garantido que dificilmente este sairá arrependido. Afinal de contas, por mais que Chaplin mereça sua popularidade cult, Buster Keaton também necessita ser apresentado a uma nova geração.



A General

De quem? Buster Keaton e Clyde Bruckman
De onde? EUA
De quando? 1926
Onde assisto? Youtube
Minha avaliação: ☆☆☆☆☆



Assista o filme, na íntegra, no Youtube:





quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Em Algum Lugar do Passado



Misturando drama romântico com viagem no tempo, “Em Algum Lugar do Passado” é uma obra singular que pega emprestado de forma bastante eficiente conceitos típicos da ficção científica para contar uma bela e poética história de amor. Baseado no livro escrito por Richard Matheson, e dirigido por Jeannot Szwarc (de pérolas como “Supergirl” e “Tubarão 2”), “Em Algum Lugar do Passado” é um inspirador discurso em defesa do amor e de sua inigualável capacidade de superar qualquer obstáculo... mesmo aqueles oferecidos pela física quântica. Outro longa-metragem que merece ser redescoberto por uma nova geração de cinéfilos, em nosso tempo presente.

Durante um terrível bloqueio criativo que o impede de escrever a sua nova peça teatral, o escritor Richard (Christopher Reeve – sim, o nosso eterno Clark Kent), resolve se refugiar em um antigo Hotel para pôr em ordem as ideias e buscar novas inspirações. Em visita a sala de antiguidades do estabelecimento, Richard se encanta profundamente pelo retrato de uma belíssima atriz do início do Século XX, Elise McKenna (Jane Seymour), e passa a investigar tudo o que pode sobre a vida reclusa e a morte misteriosa da mulher. Cada vez mais convicto de que suas vidas estão intimamente relacionadas por algum estranho modo, Richard se debruça sobre livros de filosofia, de psicologia e de física quântica, disposto a encontrar uma forma de voltar no tempo e se encontrar com sua paixão de um passado distante.





Certamente o ponto alto da carreira de Szwarc, “Em Algum Lugar do Passado” é um filme que curiosamente foi bem malhado pela crítica à época de seu lançamento, mas abraçado de forma ternamente carinhosa por um público que saiu do longa emocionado pela trágica história de amor de Richard e Elise, presos para sempre em uma bolha no tempo, eternamente embalada pelo som de “Rapsódia Sobre um Tema de Paganini”, de Rachmaninoff. Com o passar dos anos, o longa foi revisto e até mesmo reconsiderado, chegando inclusive a alcançar um status cult, praticamente um ‘novo clássico’, mas hoje em dia, infelizmente, encontra-se quase esquecido. O que é uma pena, pois traz uma das histórias de viagem no tempo mais poéticas já feita, cuja justificativa sublime reside não na curiosidade racional do homem, mas sim na expectativa de conferir plenitude aquilo que torna alguém humano: a sua paixão.

Que é encarnada aqui com total competência por um Christopher Reeve em seu primeiro papel após o estrondoso sucesso de “Superman – O Filme”. Seu protagonista é uma figura inquieta e insatisfeita, um sujeito amargurado pelo sentimento de ter perdido um amor que ainda não teve – mas sempre mantendo a chama da esperança de um dia vir a tê-lo (e sua animação ao descobrir o sucesso de uma de suas empreitadas chega a ser tão contagiante que cativa o espectador). Jane Seymour, por sua vez, consegue conferir verossimilhança a sua personagem e a seus sentimentos, de forma absolutamente satisfatória (o que é essencial, uma vez que o roteiro do filme necessita que o velho clichê do ‘amor à primeira vista’ seja convincente para dar certo). Infelizmente, a utilização que o filme faz de Christopher Plummer como o antagonista do casal é a mais esquemática possível, com um desenvolvimento bem pobrinho, nunca gerando real ameaça e saindo de cena sempre que é mais conveniente para o roteiro, sendo um acréscimo conflituoso quase que desnecessário à trama principal.





O que não estraga de forma alguma o encantamento que o longa-metragem transmite como um todo. Romântico e trágico, “Em Algum Lugar do Passado” é um filme inspirador que certamente ficará marcado na memória de seu espectador por bastante tempo. Se utiliza de muletas da ficção científica para contar uma envolvente história no qual o que mais importa são as emoções e não a ciência. Os espectadores mais exigentes (leia-se: chatos), poderão estranhar a ausência de várias respostas para as lacunas científicas deixadas pelo longa, mas é justamente porque estas, na verdade, não são importantes. Onde estaria o fascínio do ‘paradoxo do relógio’, por exemplo, se este viesse acompanhado de uma explicação racional? A beleza e a melancolia do filme reside justamente no mistério com o qual aprisiona aquelas duas pessoas de forma tão profunda e apaixonada, em um ciclo que tenderá ao infinito. Assim como acontece com tempo, o amor, afinal, prescinde de explicações para ser devidamente apreciado.


Em Algum Lugar do Passado

De quem? Jeannot Szwarc
De onde? EUA
De quando? 1980
Aonde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆☆




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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

"Elizabeth" (1998) e "Elizabeth - A Era de Ouro" (2007)





Quando assumiu o trono da Inglaterra em 1559, Elizabeth I teve que enfrentar tanto os que contestavam o seu direito de governar - por ter nascido do casamento polêmico entre Henrique VIII e Ana Bolena, uma união considerada por muitos membros da nobreza e pelo próprio povo como ilegítima - como também as ameaças católicas externas (e internas) às suas intenções de consolidar o protestantismo como religião oficial do Reino - algo que motivou o apoio do Papa para com seus já inimigos naturais, Escócia, Espanha e França. O filme "Elizabeth", de 1998, sintetiza os conturbados primeiros anos da governante, com foco nas conspirações palacianas, e na evolução da protagonista de menina insegura para uma das estadistas mais fortes da história da humanidade.

Um dos elementos mais fascinantes dessa cinebiografia é justamente a forma como o roteiro humaniza a personagem (em uma interpretação de Kate Blanchett digna da realeza do cinema), mas ao mesmo tempo sem deixar de retratá-la com uma personagem forte. Seu nervosismo ao ter que presidir uma de suas primeiras audiências com um bando de homens que a subestimam é normal e compreensível, mas a rapidez com que a personagem muda o jogo e começa a se sentir confortável em impôr a sua autoridade demonstra o talento típico de uma líder natural. A 'Elizabeth' de Blanchett é uma rainha que possui dúvidas, o que enriquece dramaticamente suas decisões. Mas ao mesmo tempo é como uma loba que irá fazer de tudo para proteger os seus filhotes - no caso, o seu país e a sua consciência.




A direção de Shekhar Kapur reconstrói a época elizabetana com charme e elegância. No elenco de apoio, Richard Attenborough, Christopher Eccleston, Geoffrey Rush (que voltaria para reinterpretar seu papel na continuação), Vincent Cassel (em um personagem levemente deslocado no tempo - na vida real, o Duque de Anjou realmente cortejou a Rainha Elizabeth, mas não na época retratada pelo filme, e sim mais à frente), e o hoje desaparecido Joseph Fiennes vivendo o que seria o interesse amoroso da rainha (e, reza a lenda, o que teria motivado o seu celibato até o final de sua vida). Sobre Fiennes, aliás, vale anotar a trívia: no mesmo ano o ator participou de dois filmes em que contracenava com a Rainha Elizabeth I. Este e no polêmico "Shakespeare Apaixonado", em que a personagem foi interpretada por Judi Dench, em uma idade já bem mais avançada.

Elizabeth

De quem? Shekhar Kapur
De onde? Inglaterra
De quando? 1998
Onde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆☆






Continuação do filme de 1998, "Elizabeth - A Era de Ouro" se passa na década de 1580, quando a personagem-título já se encontra a mais de vinte anos no poder e já tendo transformado a Inglaterra de um reino falido para uma das maiores potências europeias da época. À essa altura, Elizabeth já havia conquistado a admiração popular, e se transformado de um rainha odiada em uma rainha amada pelo seu povo, mesmo que ainda sofresse uma forte oposição dos católicos. A trama deste segundo filme gira em torno da tentativa do Rei Filipe II da Espanha, católico fervoroso, de conquistar o reino da Inglaterra através de uma poderosa armada, justificando seus atos por motivações religiosas e, claro, econômicas.

É um filme um pouco inferior ao original. Se no primeiro havia a sensação de que mesmo um público completamente leigo em História poderia acompanhar a trama sem maiores problemas, aqui a necessidade de um 'background' de conhecimento prévio se faz um pouco mais evidente. Quem não conhece, por exemplo, a história de Mary Stuart, a rainha exilada da Escócia, pode ficar sem entender o porquê dela começar o filme como prisioneira da Coroa Britânica - e o porquê dela surgir como uma alternativa da oposição à protestante Elizabeth (sobre isso, valeria a pena dar uma conferida no recente "Duas Rainhas" com Saoirse Ronan e Margot Robbie, que conta o início do rivalidade entre Elizabeth e Mary Stuart, e que ajuda a preencher a lacuna temporal que fica entre as duas partes de "Elizabeth"). No mais, as fracas cenas de ação do terceiro ato, bem como o uso do CGI para trazer a frota naval trazem uma certa artificialidade que não existia no longa anterior.

Mas Kate Blanchett ainda é a alma do filme, ainda poderosa, ainda forte, mas ainda uma humana, que sente e lamenta o peso de seu cargo, e que ressente a impossibilidade de ter tido uma vida normal. E é legal que ela tenha retornado ao papel - junto com Geoffrey Rush como o seu leal Sir Francis Walsingham - pois isso reforça a sensação de continuidade da história. Já Abbie Cornish e Clive Owen se mostram boas adições, mesmo que seu relacionamento - e o sentimento de ciúmes que este provoca na protagonista - seja explorado de forma superficial pelo roteiro. Ainda assim, é uma continuação competente o suficiente para fazer valer a pena uma sessão dupla, e dar a conhecer os espectadores um pouco mais sobre uma das maiores estadistas da história da humanidade.




Elizabeth - A Era de Ouro

De quem? Shekhar Kapur
De onde? Inglaterra
De quando? 2007
Aonde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆




                                               




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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Missão: Impossível




Há mais de vinte anos, chegava aos cinemas um filme cujo sucesso estrondoso iria provocar uma revitalização bem-vinda ao gênero “espionagem” (que, já fazia algum tempo, não se levava muito a sério). Esse filme é o icônico “Missão: Impossível”, estrelado por Tom Cruise e dirigido pelo mestre Brian de Palma. Com suas cenas de ação inovadoras; uma direção eficiente; um roteiro simples, porém, instigante; e a trilha sonora marcante de Lalo Schifrin; “Missão: Impossível” é um thriller de ação que funciona e faz sucesso até hoje (como podem comprovar as cinco continuações que a franquia ganhou nesses vinte anos).

Baseado em uma antiga série de TV dos anos 60, “Missão: Impossível” conta a história do agente Ethan Hunt (Tom Cruise), que, após perder toda a equipe em uma missão na Europa Oriental e sobreviver, passa a ser considerado pela agência um agente duplo. Foragido e a fim de comprovar a sua inocência, Hunt pretende pegar o verdadeiro espião, e para isso entrará em contato com o misterioso traficante de armas “Max”. O traficante lhe promete revelar a identidade do traidor se Hunt lhe conseguir uma lista de todos os agentes norte-americanos da CIA infiltrados que atuam na Europa. Assim, Hunt monta uma equipe com outros renegados da agência (Jean Reno e Ving Rhames), para conseguir invadir um dos cofres mais protegidos da Agência de Inteligência Norte-Americana.

Missão: Impossível” se destaca da grande maioria de filmes de ação e de espionagem pela sua estética muito bem construída pelo diretor Brian De Palma. A forma singular com que ele grava momentos como a conversa entre Hunt e seu superior em um restaurante, por exemplo, são filmados predominantemente por um ângulo baixo, o que acentua a sensação de tensão e de urgência por parte do espectador. Da mesma forma, as pontuais cenas de ação do filme não possuem um número excessivo de cortes que as tornem confusas espacialmente, erro mais do que costumeiro em filmes do gênero. E se os efeitos especiais do grande clímax no terceiro ato podem parecer um pouquinho datados, a verdade é que ainda funcionam pela forma enérgica com que a cena é filmada.




Elogios também devem ser feitos à escolha equilibrada da trilha sonora que, além de contribuir para mais um grande tema cinematográfico, não vê motivos para ilustrar cada cena de ação com uma música retumbante. O filme sabe manter a angústia no espectador nos momentos em que o silêncio se mostra mais eficaz, como na clássica cena em que Ethan Hunt se encontra suspenso por um cabo. E ainda que o roteiro possua um certo grau de previsibilidade (não precisa ser muito gênio para descobrir o que realmente aconteceu com a equipe do protagonista), a verdade é que a agilidade com que tudo acontece ajuda a manter o espectador sempre interessado, sem perder o pique.

E por isso que uma maior complexidade psicológica nos personagens, aqui, se mostra descartável. Eventuais críticas que possam ser feitas sobre uma suposta ausência de profundidade dos personagens de “Missão: Impossível”, na verdade, não são cabíveis. Primeiro, que a falta de exploração da identidade dos personagens se mostra adequada (afinal de contas, eles são agentes secretos, faz parte da profissão deles não deixar transparecer quem eles realmente são). E segundo que, se o filme se prestasse a trabalhar questões como família, objetivos de vida, motivações pessoais ou sentimentos íntimos dos personagens sobre suas próprias atitudes, correria o sério risco de criar ‘barrigas’ que apenas diluiriam o seu foco. De fato, esses elementos acabam não fazendo a menor falta, e foi até melhor deixá-los em aberto para que pudessem ser aproveitados nas continuações.

Assim, “Missão: Impossível” é um filme que acerta até mesmo naquilo que ele não faz, mostrando ser um exemplar que conjuga de forma perfeitamente equilibrada o entretenimento de qualidade e o bom cinema. Um excelente ponto de partida para uma franquia que, de maneira geral, conseguiu manter um padrão de qualidade em suas continuações. Com exceção, talvez, de sua continuação direta “Missão: Impossível 2”, o mais desinteressante da franquia, mas isso é assunto para outra hora.



Missão: Impossível

De quem? Brian De Palma
De onde? EUA
De quando? 1996
Onde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆☆☆


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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Django Livre


Dois anos antes da Guerra Civil Americana, o escravo Django Freeman (Jamie Foxx) é comprado pelo caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz), a fim de ajudá-lo a identificar três criminosos foragidos. Em troca, o homem promete não só libertar Django, mas também ajudá-lo a encontrar a sua esposa, Broomhilda von Shaft (Kerry Washington), que foi comprada pelo cruel Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). A partir dessa premissa simples, Quentin Tarantino faz de “Django Livre” uma odisseia épica, revitalizando o gênero “faroeste” (que andava meio moribundo nas últimas décadas), e entregando aquela que é, provavelmente, a maior obra-prima de sua carreira até então.

Nunca antes as habilidades de Quentin Tarantino na direção estiveram tão maduras e tão adequadas ao tom da história que está sendo contada. As firulas gratuitas de Tarantino permanecem, é claro (as explosões bizarras de sangue, a interrupção da linearidade, intervenções narrativas com letreiros, seus movimentos de câmera que subvertem o método clássico, etc). Mas é em “Django Livre” que seu estilo se mostra mais apropriado. Afinal, ao afastar sua narrativa no tempo, o diretor consegue lidar melhor com o caráter fantasioso, lúdico e metafórico do universo de Django, fazendo com que suas estripulias estilosas na direção soem orgânicas, ao invés de chamarem a atenção para si próprias.




E, é claro, Quentin Tarantino é um diretor que sabe que um espetáculo vazio é o mesmo que uma oportunidade desperdiçada e sempre busca trabalhar temas intelectuais que enriquecem suas obras e suas explosões de sangue. Se em “Bastardos Inglórios” ele recriou a Segunda Guerra para possibilitar uma desforra dos judeus, e se em “Kill Bill” ele trabalha a questão do feminismo, em “Django Livre” Tarantino usa a vingança para falar da questão racial, do horror que foi a escravidão, da importante influência que o homem negro trouxe para a cultura ocidental e da (des)necessidade do homem branco para a sua emancipação. Afinal de contas, por mais que seja King Schultz quem tenha lhe apontado a porta, deve ser atribuída somente a Django o fato deste ter conseguido atravessá-la. Um retrato de força e independência que deveria servir de lição social para muita gente (inclusive nos dias de hoje).

Aliás, a forma como o personagem de Django cresce ao longo da projeção é admirável e tudo graças ao talento de Jamie Foxx, aqui, em sua melhor performance. Do escravo amedrontado e inseguro do início da trama, até o guerreiro independente e senhor do próprio destino nos minutos finais, a transição de Django sempre soa orgânica, verossímil e muito bem-vinda. E é interessante como ele se contrapõe em perfeita simetria com o seu principal antagonista, o desprezível Stephen (Samuel L. Jackson). Se o primeiro encontrou sua força na independência, o segundo se utiliza de uma falsa submissão extrema para dissimular o domínio que tem sobre aquele que, em tese, deveria ser seu amo. É incontestável, “Django Livre” é um filme onde os Senhores são os negros, e os brancos meros assistentes. O que difere Django e Stephen é apenas o fato deste último ter aprendido a utilizar o terrível sistema escravagista a seu favor, mostrando um nível de corrupção pouco antes visto nas obras do diretor.




Mas mesmo em segundo plano, Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio estão espetaculares em seus respectivos papéis. Waltz, divertindo e encantando com sua educação e seu modo de falar pomposo (dessa vez não sentimos culpa por amarmos o seu personagem) e DiCaprio dando calafrios como um estancieiro cínico e absurdamente sádico (seu passatempo preferido é ver negros lutando até a morte na sala de estar). E é uma pena que Kerry Washington, a única personagem mulher em cena de relativa importância, esteja tão limitada ao papel da mocinha que precisa ser resgatada, o que demonstra, talvez, a única oportunidade desperdiçada de Tarantino.

Com uma trilha sonora fantástica (que vai desde assobios característicos do faroeste até baladas de hip-hop) e planos belíssimos e perfeitamente funcionais (como o sangue que mancha o algodão, o principal vetor da economia do sul escravagista no Século XIX), “Django Livre” ainda diverte com um roteiro tipicamente “tarantinesco” (que transforma diálogos prosaicos em conversas memoráveis) e nas pontas de Jonah Hill (uma das coisas mais engraçadas que eu já vi em uma sala de cinema) e do próprio diretor (genial pela forma como se encerra). Um filme explosivo que, quando termina, deixa o espectador com uma vontade de continuar acompanhando o protagonista por suas aventuras. Um desejo louco de “quero mais”.





Django Livre

De quem? Quentin Tarantino
De onde? EUA
De quando? 2012
Onde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆☆☆


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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Psicose

 


"Psicose" é um daqueles raros filmes em que absolutamente tudo funciona. A trilha sonora de Bernard Hermann entrou para a história do cinema e virou cultura pop, com suas notas estridentes que 'criam' o som da lâmina penetrando na carne, acompanhadas depois pelas batidas de um coração morrendo. A fotografia em preto e branco é a mais bonita de todos os filmes do Hitchcock, enquanto que o roteiro funciona por ser enxuto, um pequeno conto de horror da Universal esteticamente estilizado. Anthony Perkins na interpretação que o marcou, mas também que o assombrou pelo resto da vida. Enquanto que Janet Leigh surpreendeu a todos no papel da heroína que se despede da plateia com quarenta minutos de filme, mas que continua assustadoramente presente justamente por sua ausência perturbadora. Hitchcock, ao antecipar seu clímax, empurra o espectador para uma zona de insegurança, de vulnerabilidade, que se mantém durante todo o restante do filme. Para a Hollywood do início da década de 60, "Psicose" é o primeiro filme a ousar ir além com a violência, plantando as sementes do que se tornaria os filmes de terror 'slasher' das décadas de 70 e 80. E é um filme que dialoga muito bem com o cinema atual, sendo uma porta de entrada ideal para qualquer um que esteja interessado a se aventurar, não só na filmografia desse grande Mestre, como também no cinema clássico como um todo.



"Minha principal satisfação é que o filme agiu sobre o público, e disso eu fazia muita questão. Em Psicose, o tema me importa pouco, os personagens me importam pouco, o que me importa é que a montagem dos fragmentos de filme, a fotografia, a trilha sonora e tudo o que é puramente técnico conseguiam arrancar berros do público. Creio que para nós é uma grande satisfação usar a arte cinematográfica para criar uma emoção de massa. E, com Psicose, realizamos isso. Não foi uma mensagem que intrigou o público. Não era um romance muito apreciado que cativou o público. O que emocionou o público foi o filme puro. [...] E daí vem o orgulho que sinto de Psicose: é um filme que pertence a nós, cineastas" - HITCHCOCK, Alfred. (Hitchcock/Truffaut: entrevistas, edição definitiva. Companhia das Letras. São Paulo, 2004).



Psicose

De quem? Alfred Hitchcock
De onde? EUA
De quando? 1960
Onde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆☆☆



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sábado, 22 de agosto de 2020

Aquarius


Já havia um núcleo em "O Som ao Redor" sobre a nostalgia e sobre a beleza poética de se preservar as nossas histórias nos objetos e nos ambientes que nos cercam, mas o filme, no todo, não era sobre isso. Já nesse "Aquarius" é exatamente este o tema principal.

O filme conta a história de Clara (Sonia Braga), uma senhora de 65 anos que se recusa a se desvencilhar do apartamento que carrega tantas lembranças de sua vida - por mais que uma construtora corrupta se esforce em tirá-la do edifício. A teimosia de sua personagem pode ser vista como algo irracional por pessoas que veem tudo através de seu aspecto prático e redutível a dinheiro - os 'Diegos' e as 'Ana Paulas' da vida - , mas eu particularmente comprei na hora a causa da protagonista, pois, no fundo, eu também sou um pouco Clara. Objetos, móveis, ambientes tem memória, fazem parte da história de quem um dia os teve, guardam em si momentos de alegria, tristeza, arrependimentos. Comprar um livro em um sebo pode significar o compartilhamento do pedaço da história de alguém, um completo desconhecido, e há uma certa beleza nesse pensamento. Enquanto que me separar de certas coisas sempre me trouxe uma certa dose de melancolia, como se fosse uma parte de mim que se ia junto.




Mas creio que esta seja uma sensibilidade nem todos possuem. A princípio pode parecer um certo materialismo, mas na verdade é o contrário, não é exatamente os objetos que importam, mas o que eles carregam. Não é do apartamento que Clara se recusa a abrir mão, mas sim das décadas ali contidas, das festas de aniversário ali vividas - como aquela do tão criticado prólogo que eu particularmente defendo, é a síntese de justificação de tudo que será visto depois - dos momentos alegres em família, das vitórias particulares sobre grandes infortúnios, e, até mesmo, dos momentos de prazer em seu nível máximo. E que não são só suas, mas também de seus filhos, e de quem veio antes dela.

Nesse sentido, Sonia Braga constrói a sua personagem e carrega o filme nas costas com o talento e a segurança adequada de quem um dia já foi rainha do cinema brasileiro (e ainda é!). Madura, impulsiva e determinada, Clara usa suas madeixas livres que servem como um símbolo de sua personalidade guerreira, pois nos fazem lembrar o 'corte Elis Regina' que sua personagem usava no início e o que ele significava então. Isso por si só já é um atestado do caráter e da natureza forte daquela mulher, uma das personagens femininas mais fortes do cinema nacional dos últimos anos. Seus confrontos com a filha Ana Paula e com o seu arqui-inimigo Diego são intensos, e é sutil o momento de absoluta ternura em que ela olha para a nova namorada do sobrinho e se vê na personagem, se dando conta, enfim, de porquê o menino se apaixonou por ela.




Em 'Aquarius' Kleber Mendonça Filho também pincela, mas em menor grau, a questão da diferença entre classes e da pequena burguesia acomodada, questões que já eram tratadas em 'O Som ao Redor' (é como se ele fizesse um jogo de contrastes, ambos os filmes tratam dos mesmos temas, mas alternando o foco). Também está presente seu humor irônico já visto no filme anterior (como ao constatar bem humorado que o que divide a 'praia dos ricos' e a 'praia dos pobres' é um mero cano de esgoto). E acrescenta à sua crítica a teia de influências que as classes altas vão formando para se protegerem de ataques externos ("-Até quem não é Cavalcante, é Cavalcante!").

Em seu segundo longa-metragem, Kleber Mendonça Filho mantém o bom padrão que o marcou em sua estreia na direção e o desenvolve, já ao ponto de minha sensibilidade particular considerar 'Aquarius' como uma obra-prima sua. E, naturalmente, é um filme que eu preciso urgentemente ter em mídia física.


Aquarius

De quem? Kleber Mendonça Filho
De onde? Brasil
De quando? 2016
Onde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆☆☆





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O Som ao Redor



Um grupo de moradores de um bairro de classe média alta em Recife, inconformados com os constantes roubos de carro na região, aceitam a oferta de serviço de um grupo de vigilantes noturnos. "O Som ao Redor" apresenta a rotina dos residentes dessa rua através do olhar pitoresco dos novos seguranças, do neto de um dos maiores proprietários de imóveis do bairro que está começando um novo relacionamento, e de uma dona de casa que se sente aprisionada pela vida que leva.

Sátira social e poesia, em uma obra aparentemente abstrata em sua superfície, mas com fundamentos bem sólidos em sua base, "O Som ao Redor" é o retrato do tédio de uma classe social média alta, das suas irresignações mesquinhas ("a minha Veja vem 'fora do plástico'!!") e o registro de como a estratificação social se perpetua no tempo apenas sob outras formas (o velho 'senhor de engenho' agora vira o velho 'senhor de imóveis'). É um filme sem protagonistas, heróis ou bons mocinhos. O que todos os personagens têm em comum é o seu 'egoísmo de classe' (o 'herói' inconformado em uma reunião de condomínio prefere sair antes que seu voto possa exercer alguma mudança, a 'dona de casa' insone que age de maneira cruel com o cachorro do vizinho). Curiosamente, no entanto, Kleber Mendonça Filho parece não julgar esses personagens, apenas os expõe de forma honesta. Quem deve fazer isso é o espectador.




Tecnicamente, poucos filmes brasileiros pensam e trabalham o som de forma tão competente quanto aqui. Não apenas o som como uma incidência ambiental, mas também como algo que pode ajudar a reforçar uma mensagem (em um processo de montagem quase eisensteiniana, o som de bombinhas explodindo pode se confundir com o som de tiros, um animal em agonia pode ser um indício de que algo aconteceu a um personagem, e uma cena que desconcerta pela sua existência intrigante pode revelar ter um significado oculto meio sombrio). E não deixa de ter uma certa sensibilidade nostálgica a forma como Mendonça associa os poucos sons da natureza vistos no filme com as memórias de infância de dois personagens, enquanto a sonoridade urbana impera no árido mundo adulto. Kleber Mendonça Filho estreia na direção de longa-metragens com o pé direito e com uma maturidade técnica que realmente chama a atenção.




O Som ao Redor

De quem? Kleber Mendonça Filho
De onde? Brasil
De quando? 2012
Onde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆☆


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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

O Show de Truman



Por ser um ator geralmente relacionado à comédia, os dramas de Jim Carrey muitas vezes passam batido pelo grande público. O que é uma pena, pois Carrey, via de regra, mostra-se um profissional bastante versátil, eficaz em ambos os gêneros. E isso o torna o intérprete perfeito para viver o protagonista caricatural e melancólico de “O Show de Truman", um drama leve dirigido por Peter Weir e roteirizado brilhantemente por Andrew Niccol. 

Na história, Truman Burbank (Jim Carrey) é um pacato vendedor de seguros que leva uma vida comum com sua esposa Meryl (Laura Linney) na pequena ilha em que viveu durante toda a sua vida. Eventos recentes, no entanto, fazem com que Truman comece a desconfiar que está sendo observado, e que as pessoas de sua cidadezinha participam de algum estranho complô (incluindo, até mesmo, sua mulher, sua família e seus amigos mais íntimos). Na verdade, o que Truman não sabe – mas nós sabemos – é que ele é o grande astro do maior reality show da história, concebido pelo produtor de TV, Christof (Ed Harris). 



Ed Harris que, inclusive, chegou a ser indicado ao Oscar pela sua atuação nesse filme. Frio, ganancioso e megalomaníaco, Christof é um personagem inteligente e manipulador que conhece todos os segredos de sua profissão e não hesita em considerar a si próprio como um deus naquilo que ele faz (a forma com que ele se manifesta no terceiro ato é a prova viva disso). Mas, como dito, é Jim Carrey quem ganha o filme. Adotando uma postura caricatural adequada (e como poderia ser diferente? Todos os adultos que ele conheceu na vida agiam em um tom farsesco), o ator encanta na forma em que constrói gradualmente os sentimentos de confusão e desconforto do personagem, na medida em que ele se dá conta (ainda que inconscientemente) da artificialidade do mundo que o envolve. 

Brilhando pela forma com que ironiza e critica o egoísmo, a superficialidade e a alienação social da “geração reality show”, o longa-metragem ganha ares assustadores ao registrar o quanto a falta de noção do povo alcançou limites estratosféricos. No universo de Truman (tanto dentro do programa, quanto fora dele), as pessoas não se interessam realmente pela vida do ser humano que ali está, mas sim em como tudo irá acabar no próximo episódio. Truman é uma pessoa cuja vida foi reduzida ao nível de um mero entretenimento, um mero brinquedinho. E o fato de pouquíssimas pessoas se levantarem contra isso (a personagem de Natascha McElhone é a única exceção) mostra o quão doentia se tornou aquela (ou a nossa) sociedade. 



E a direção se destaca também nos quesitos técnicos. Peter Weir utiliza a natureza do reality show para emular o modo de filmagem televisivo, como lentes olho-de-peixe que distorcem a imagem de forma circular (tapando os cantos das imagens com fades escuros). Ademais, sabe explorar os potenciais da história ao criar enquadramentos que surgem das perspectivas mais variadas possíveis (desde a da funcional rádio do carro, até o estranho e inútil ponto de vista do apontador de lápis). No mesmo sentido, o roteiro brinca ao poder explorar as mais inusitadas situações, como a queda de um holofote, o elevador que na verdade é um camarim, o defeito no dispositivo de chuva artificial e as hilárias intervenções dos patrocinadores. 

Falhando um pouquinho na transição para o terceiro ato que surge abrupta e repentina, “O Show de Truman” é uma fábula moderna que vem se tornando mais possível a cada dia que passa. Afinal de contas, como não temer o futuro de uma sociedade que cada vez mais “assiste” o seu próximo, mas não realmente o “enxerga”? No fim, cada um de nós está se tornando o ‘Truman’ de sua própria realidade, e o espectador da realidade dos outros.



O Show de Truman

De quem? Peter Weir
De onde? EUA
De quando? 1998
Onde assisto? Netflix
Minha avaliação: ☆☆☆☆




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