segunda-feira, 6 de julho de 2020

Era Uma Vez no Oeste - Tributo a Ennio Morricone


(Aqui fica a minha singela homenagem ao compositor Ennio Morricone, falecido hoje em 06.07.2020. Responsável por muitas das trilhas sonoras mais belas da história do cinema, em especial as de westerns spaghetti's pelas quais certamente se tornaria mais conhecido. Mesmo que alguém nunca tenha visto um filme de faroeste na vida, é impossível que nunca tenha escutado os acordes e o clássico assobio de "Três Homens em Conflito", apenas para ilustrar a importância desse músico. Como indicação, deixo um filme que não só é um dos mais espetaculares em que ele trabalhou, mas como também é, não por acaso, a minha trilha predileta de um filme dele: "Era Uma Vez no Oeste".) 


O que “O Poderoso Chefão” é para os filmes de gângster, e “E o Vento Levou” é para os romances, “Era Uma Vez no Oeste” é para o faroeste. Raras são as obras realmente merecedoras de designações absolutas, mas esta preciosa joia cuidadosamente lavrada por Sergio Leone é perfeita. Poucas vezes a sensação de se viver no Velho Oeste foi criada com tamanha perfeição e maestria, e arrisco dizer que nunca – nunca – o Monument Valley foi filmado em planos abertos e lindos de maneira tão apaixonada. Com um orçamento digno de uma mega-produção, Leone volta uma vez mais para fazer o filme definitivo do gênero que o consagrou, e o resultado é nada menos que soberbo.

Ainda assim, é bom que se diga que há uma diferença crucial em tom que distingue “Era Uma Vez no Oeste” dos filmes da “Trilogia dos Dólares”. Apesar de partilharem a mesma ambientação, os filmes estrelados por Clint Eastwood possuíam uma leveza que falta a “Era Uma Vez no Oeste”. Este, por sua vez, adota um tom solene e grave, que se reflete na sempre tão certeira trilha sonora de Ennio Morricone. Desde a canção na gaita de boca que prenuncia o personagem de Charles Bronson, até o coro de vozes que ao mesmo tempo enaltecem e lamentam a chegada da personagem de Claudia Cardinale ao Velho Oeste americano, há sempre um sopro de morte nas notas carregadas. Como disse o próprio Leone ao se referir ao filme: “Era Uma Vez no Oeste é, do começo ao fim, uma dança da morte. Todos os personagens do filme [...], têm consciência de que não chegarão vivos ao final”.





Retornando ao tema da vingança (que fora o mote secreto de “Por uns Dólares a Mais” e que movimentou vários momentos da trama de “Três Homens em Conflito”), “Era Uma Vez no Oeste” já inicia com uma ambiciosa sequência de quinze minutos em que nada e tudo acontecem. Três homens esperando algo na estação de trem. Esperando pelo principal personagem da história que motiva e movimentará toda a trama: a chegada do trem. E com ele a chegada de um misterioso pistoleiro sem nome, nomeado pelos demais personagens do filme apenas como Harmônica (Charles Bronson). Ele persegue um estranho chamado Frank (Henry Fonda), um impiedoso e frio assassino de aluguel, que insiste em não comparecer nos encontros marcados.







Mas o protagonista de “Era Uma Vez no Oeste” não é Harmônica, nem tampouco Frank. Pela primeira vez na filmografia de Sergio Leone, toda a história gira em torno de uma mulher: Jill McBain (Claudia Cardinale). Ex-prostituta recém-casada com um fazendeiro da região, esta chega a cidade apenas para descobrir que se tornou viúva e proprietária de um considerável pedaço de terra, após o sr. McBain e seus filhos serem cruelmente assassinados. O crime acaba sendo injustamente imputado a Cheyenne (Jason Robards), um bandido que fará de tudo para comprovar essa inocência. Em “Era Uma Vez no Oeste” as histórias de Jill, Harmônica, Frank e Cheyenne vão flertar uma com a outra e convergir para uma só. E, no meio de todas elas, está a chegada do trem, como a que prenunciar o final de uma era.

Era Uma Vez no Oeste” é mais que um filme, é uma experiência sensorial. Se durante a “Trilogia dos Dólares” Sergio Leone dilata o tempo a seu favor, e não tem pressa para contar sua história, aqui essa característica atinge sua maturidade. Curiosamente, isso nunca torna a obra tediosa ou maçante. A sensação sufocante do ócio aumenta no espectador um sentido de alerta e acende gradativamente a tensão para algo que sabemos que irá acontecer. Não sabemos exatamente o quê, mas sabemos que será violento. Nesse sentido, as pequenas coisas como o zumbido de uma mosca ou uma goteira no chapéu tornam-se ferramentas de imersão pelo seu incômodo causado. Outra característica típica de Leone, sua paixão pelo contraste entre planos abertos e closes fechados nos rostos dos atores se encontra presente, e o mais beneficiado disso, é claro, é Henry Fonda que encontra no azul de seus olhos o contraste perfeito com a vilania negra de sua alma.





Fonda que durante anos fora o ator-fetiche platônico de Sergio Leone, mas que nunca havia aceitado um convite seu. Em “Era Uma Vez no Oeste” podemos sentir não só um arrependimento do ator, como também que ele está se divertindo à beça a oportunidade de viver um vilão frio e implacável (a apresentação de seu personagem é matando uma criança!). Charles Bronson – outro ator dos sonhos de Sergio Leone – reconhecido geralmente por ser um ator limitado, cai como uma luva no papel do enigmático, vingativo Harmônica, sempre se portando, em qualquer situação, como o senhor da situação. E se Jason Robards surge quase como um inesperado – mas nunca fora do tom – alívio cômico, é claro que é Claudia Cardinale, pela sua relevância central, talento e beleza, quem rouba e garante o filme todo para si. “Era Uma Vez no Oeste” é, acima das vinganças e ajustes de contas pessoais de cada um, o drama da personagem Jill McBain. O drama de ser mulher e ter que sobreviver em uma terra tão brutal e sem lei.


Com a típica fotografia árida do gênero (sempre puxando para tons de bege e marrom), e uma construção de época belíssima para todos que amam o estilo (a cena da grua tomando a imagem da pequena cidade sincronizada com a música é um dos vários momentos épicos que a obra atinge), Sergio Leone fez o Western dos Westerns, um filme que sintetiza em si todo um gênero, o puro faroeste concentrado que é, até hoje, difícil de superar. Sua imponência é comparada a do próprio Monument Valley, que impera absoluto como uma cicatriz permanente no deserto americano a modo de sempre nos lembrarmos de uma época. Em sua segunda obra-prima, Sergio Leone fez um filme que entra, facilmente, como um dos melhores filmes da história do cinema mundial.






Era Uma Vez no Oeste

De quem? Sergio Leone
Com trilha sonora de: Ennio Morricone
De onde? Co-produção EUA/Itália
De quando? 1968
Tem no Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆☆☆



Na dúvida, assista o trailer:



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Riposare in Pace, Ennio Morricone
(1928 -2020)
 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Sniper Americano



É perfeitamente possível fazer um filme de guerra e evitar que ele seja patriótico ou ufanista. É só fazer um filme de guerra que critica a própria guerra. Retratando-a como algo irracional, que destrói a mente daqueles que a participam dela (quando não a própria vida), e mostrando ambos os lados do conflito de forma imparcial. É mais inteligente reconhecer que não há heróis em uma guerra. Todos morrem, e todos matam. E quando o conflito não mostra justificação alguma para existir (caso da Guerra do Iraque), idolatrar os 'grandes feitos' de seus 'heróis' se torna moralmente ainda mais complicado.

O que não tira os méritos de "Sniper Americano" como um ótimo estudo de personagem. Entre uma patriotada e outra, Clint Eastwood traça o perfil do personagem Chris Kyle, desde a sua infância criada através dos valores conservadores de uma família republicana, seus primeiros trabalhos como peão de rodeio fracassado, sua revolta com o atentado ao World Trade Center, e, enfim, sua atuação como sniper na Guerra do Iraque, quando deteve o recorde de mais execuções no conflito.





Nesse meio tempo, Eastwood oscila entre o bom caminho - mostrando como a guerra vai gradualmente 'quebrando' o psicológico do protagonista até transformá-lo em uma máquina programada ou um animal adestrado pronto para o menor sinal de ataque. Nesse sentido, o filme faz valer uma sessão dupla com o 'Guerra ao Terror', da Kathryn Bigelow - e o mau caminho, ao jamais questionar a validade do conflito ou contestar a alcunha de seu protagonista como 'herói'. Na verdade, o roteiro até tenta algo meio desonesto... quem desconhece a história mais recente pode até achar que a Guerra no Iraque se deu como resposta ao 11 de setembro e que a raiva do protagonista é justificada, quando na verdade a retaliação ao atentado foi a Guerra do Afeganistão, da qual Chris Kyle não participou.




Ainda assim, o cuidado com que o roteiro constrói os dilemas particulares e familiares do protagonista, a excelente atuação de Bradley Cooper, e a impecável direção de Clint Eastwood compensam os tropeços éticos de "Sniper Americano". Eastwood se destaca não só pela coerência e plena compreensão visual das cenas de ação (até mesmo quando estas são 'atrapalhadas' por uma tempestade de areia), mas também por saber lidar com a tensão crescente entre os dois snipers rivais. Já Cooper - um ator engessado pelas comédias românticas - provavelmente faz aqui uma das performances mais complexas de sua carreira (vamos desconsiderar o Rocket, de "Guardiões da Galáxia").

Mostrando que o bom filme, o filme rico, pode ser analisado por vários ângulos, "Sniper Americano" é uma obra complicada, e ao mesmo tempo ambiciosa, e que também pode funcionar como simples entretenimento de ação. Provocando discussões, é um filme que consegue concentrar discursos certos e errados em um curioso paradoxo. Posso não concordar com muita das coisas que o longa defende, mas não posso deixar de reconhecer a exatidão de outras, ou tampouco a competência com que ele as diz.


Sniper Americano

De quem? Clint Eastwood
De onde? EUA
De quando? 2014
Tem na Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆☆


Na dúvida, assista ao trailer:


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Cinema, Aspirinas e Urubus



Um retrato do choque de culturas, da miséria, mas, acima de tudo, do respeito, da amizade e do companheirismo que se formam entre dois homens tão diferentes entre si. "Cinema, Aspirinas e Urubus" mostra o sertão nordestino sob duas óticas distintas. A do alemão Johan (Peter Ketnath) que, fugindo da Segunda Guerra Mundial, trabalha como representante comercial de medicamentos viajando de cidade em cidade apresentando um documentário informativo sobre Aspirina, e a do nativo e bronco Ranulpho (João Miguel), caroneiro que está tentando chegar ao Rio de Janeiro na esperança de obter uma vida melhor.

Enquanto que o primeiro vê uma certa poesia e fascinação na simplicidade daquele mundo completamente novo, o segundo só enxerga a dureza e a brutalidade de uma terra torturante. Em sua viagem juntos, as duas visões díspares vão acabar formando uma imagem mais complexa e tridimensional do nordeste brasileiro. E os dois homens acabarão 'herdando' um pouco dos traços, pensamentos e visões um do outro, em um processo quase de simbiose cultural. Se Johan vai se tornando um pouco mais endurecido e cínico com o mundo, Ranulpho descobrirá uma empatia pelo próximo e uma sensibilidade na magia do cinema que até então desconhecia.





O diretor Marcelo Gomes utiliza a estrutura típica de um 'road movie': não importa onde os personagens chegarão, mas sim a transformação que eles passam durante sua jornada. Sua câmera muito próxima dos atores quase que na totalidade da projeção (com exceção apenas dos planos gerais das paisagens), nos convida a se tornar íntimos daquelas figuras, e nos sufoca com a proximidade daqueles corpos. A fotografia dessaturada contribui para passar um clima de aridez (sentimos sede assistindo o filme) e de improbabilidade de vida naquele universo.

O que se mostra adequado. Afinal, se há um tema principal em "Cinema, Aspirinas e Urubus" é justamente a questão da sobrevivência. Principalmente quando todo o ambiente em que você se encontra parece estar contra você.





Cinema, Aspirinas e Urubus

De quem? Marcelo Gomes
De onde? Brasil
De quando? 2005
Tem na Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆☆




Na dúvida, assista o trailer:


quarta-feira, 24 de junho de 2020

ESPECIAL MIYAZAKI - Vidas ao Vento


Último filme de Hayao Miyazaki, "Vidas ao Vento" se destaca por sua natureza peculiar. Trata-se da cinebiografia de um personagem real importante para a história da aviação no Japão, só que feita em animação. É um drama com vários momentos que se prestam à pura contemplação, e poderia perfeitamente ter sido feita em 'live action'. Não à toa, é o único filme do cineasta que as crianças poderão vir a achar entediante.

O filme conta a história de Jiro Horikoshi, o engenheiro aeronáutico responsável por criar o caça japonês com o design 'espinha de peixe'. Acompanha a sua paixão pela aviação desde garoto, retratando a sua frustração de nunca poder pilotar devido à sua miopia, passando pelos seus estudos para se tornar um engenheiro, a descoberta do amor na figura da doce e frágil Naoko, até atingir a sua satisfação profissional ao construir o que seria "o avião japonês perfeito". Entrementes a isso, Miyazaki retrata alguns eventos históricos importantes do Japão pré-Segunda Guerra, bem como a sombra que estava começando a se formar no horizonte.




A beleza de "Vidas ao Vento" está na forma com que Miyazaki equilibra o pessimismo do mundo real, com a poesia repleta de esperanças dos sonhos. Há algo de motivacional na paixão que Jiro tem pelo seu trabalho. Nos convence que com dedicação extrema também podemos alcançar o que desejamos. Miyazaki parece aproveitar a oportunidade para fazer uma reflexão sobre seu próprio legado, e agradecer por ter tido uma vida plena fazendo aquilo que amava (não à toa, a última palavra do filme é um embargado 'Arigatô!').

Mas também há melancolia em 'Vidas ao Vento'. O diretor não nos deixa esquecer que o homem pegará a criação de Jiro e transforma-la-á em uma arma. O próprio Jiro demonstra consciência que os aviões encomendados a ele serão usados na Guerra, e lamenta pela falta de visão da humanidade. Isso não o impede, no entanto, de continuar trabalhando. Talvez aqui resida uma falha do filme, a obsessão de Jiro pelo seu sonho o impede de ter reflexões morais mais profundas, o que enriqueceriam o personagem.

Ainda em relação à Guerra, vale mencionar que 'Vidas ao Vento' chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Animação, perdendo naquele ano para 'Frozen - Uma Aventura Congelante'. O que é até compreensível, embora 'Vidas ao Vento' seja infinitamente mais maduro do que 'Frozen'. Desconsiderando a hegemonia Disney e Pixar na categoria, dificilmente os norte-americanos dariam um Oscar a um filme sobre um cara que ajudou a fazer os aviões que explodiriam Pearl Harbor.





A qualidade técnica da animação continua excepcional como de hábito. Não só no design dos aviões, na forma como Miyazaki anima os efeitos do vento sobre os tecidos, cabelos e objetos, mas também nos detalhes bobos, como ao brincar com a forma dos olhos do protagonista por trás das grossas lentes dos óculos. Tem um instante, inclusive, que o personagem se encontra sentado em um bonde, e o Miyazaki tem a preocupação de desenhar no basculante da janela atrás dele o reflexo de pessoas que estão FORA do enquadramento! Esse é só um exemplo do nível exaustivo de detalhes do trabalho do cineasta.





Hayao Miyazaki anunciou a aposentadoria após o lançamento de 'Vidas ao Vento'. Entretanto, em 2017 afirmou que estava trabalhando em um novo longa-metragem de animação para o estúdio Ghibli. Esse novo filme, no entanto, ainda não tem data prevista para lançamento.


Vidas ao Vento

De quem?  Hayao Miyazaki
De onde? Japão
De quando? 2013
Tem na Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆☆




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segunda-feira, 22 de junho de 2020

ESPECIAL MIYAZAKI - Ponyo, Uma Amizade que Veio do Mar



"Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar" é um filme que deve ser assistido com a criança de sete anos que existe dentro de você no modo 'ligado'. Pois é a animação mais... 'bobinha' do Miyazaki. Mas ainda assim consegue ser absolutamente graciosa e encantadora pela simplicidade de sua lógica infantil absurda. Dá vontade de pegar a pequena protagonista e levar pra casa.

Nessa historia claramente inspirada por "A Pequena Sereia", Kosuke é um menino de cinco anos que salva um pequeno peixinho com um rosto de gente, o qual resolve adotar e colocar o nome de Ponyo. O que ele não sabe é que 'Ponyo' é a filha fugida um feiticeiro com uma deusa dos mares. Qual a sua surpresa então quando o peixinho se transforma em uma menininha, que está mais do que decidida a se tornar humana de forma definitiva. No entanto, sem saber, sua fuga para terra firme acaba desencadeando enormes desequilíbrios ambientais no planeta.




E quando eu digo que "Ponyo" é uma animação bobinha, isso se refere ao fato da história ser toda contada para nós através do ponto de vista de duas crianças de cinco anos. Mas no fundo, o longa possui a mesma maturidade das outras obras do Miyazaki, principalmente na preocupação ambiental. Todo os transtornos do longa começam por que o rancoroso pai de Ponyo sente raiva dos humanos por estarem poluindo os mares. A subida do nível do mar também é abordada sob uma ótica extremamente preocupante e urgente, ainda que no filme seja tratada como uma 'consequência mágica' dos atos de Ponyo.

O estilo do traçado do Myazaki também difere um pouco do de suas outras obras. Existe uma textura de 'lápis de cor' em vários ambientes do filme, como por exemplo a casa de Kosuke. Essa escolha reforça a ideia de uma visão de mundo ainda pré-escolar. O talento do cineasta de encher seus enquadramentos com centenas de detalhes continua presente, principalmente nos minutos iniciais do longa e em todas as belíssimas sequências que se passam no fundo do mar.




"Ponyo", portanto, é um filme que conquista o coração pela fofura, mas como muito outros do cineasta também oferece algo de oportuno a dizer. No fim, acaba valendo a pena se permitir ser criança, nem que seja por apenas uma vez mais.

Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar

De quem? Hayao Miyazaki
De onde? Japão
De quando? 2008
Tem na Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆☆


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domingo, 21 de junho de 2020

ESPECIAL MIYAZAKI - O Castelo Animado



Você será bombardeado por uma riqueza de detalhes e de informações visuais qualquer que seja a direção do enquadramento que percorra com o olhar ao assistir "O Castelo Animado". Essa tendência em criar universos em um nível quase exaustivo já era uma marca registrada de Miyazaki em seus outros filmes. Mas aqui ele realmente extrapola. Feito após "Princesa Mononoke" e "A Viagem de Chihiro" - longas responsáveis por torná-lo popular no ocidente - "O Castelo Animado" já foi lançado sob a pressão do Miyazaki como um cineasta reconhecido internacionalmente. E ainda que seu roteiro não seja tão redondinho quanto os dos seus dois antecessores, é no visual deslumbrante que o filme compensa falhas que, no final das contas, acabam sendo bem pontuais.




Na trama, a jovem Sophie é uma menina tímida e com pouquíssima autoestima que, após um mal-entendido, é enfeitiçada por uma bruxa enciumada e tem seu corpo transformado no de uma idosa. Ela então se vê obrigada a reunir forças e iniciar uma jornada em busca do mago Hauru, que, em tese, teria o poder para quebrar o seu feitiço. O problema é que ele mora em um enorme castelo mágico com pernas mecânicas que se locomovem pelo mundo, nunca ficando muito tempo no mesmo lugar.

Uma das sacadas instigantes do roteiro está na sugestão sutil e aberta a interpretação de que Sophie, na verdade, não foi transformada em uma velhinha. O real efeito do feitiço sobre ela é que o seu corpo refletiria o estado de sua alma (o que justificaria o porquê de sua aparência oscilar tanto no decorrer do filme). Se olhado por esse ângulo, o "O Castelo Animado" vira uma história sobre a depressão, de como ela suga a energia de uma pessoa jovem tornando-a velha por dentro, e da luta constante que é 'manter-se jovem' enquanto se está sendo sufocado pelo seu peso. O feitiço da bruxa teria apenas revelado a verdadeira condição emocional da menina aos olhos dos outros.




A história é adaptada de um livro de uma escritora britânica de universos fantásticos chamada Diana Wynne Jones (cujas muitas ideias para feitiços e ambientes mágicos podem ter servido de inspiração para J.K. Rowling criar elementos específicos de sua saga 'Harry Potter' - afinal, ambas as histórias poderiam perfeitamente existir em um mesmo universo, e possuem um clima muito parecido). Ademais, se em obras como "A Viagem de Chihiro" e "Meu Amigo Totoro", Miyazaki é claramente influenciado por "Alice no País das Maravilhas", aqui ele se socorre do arcabouço referencial possibilitado por obras ocidentais como "O Mágico de Oz" e "A Bela e a Fera", para ajudar a compôr a narrativa. 
 
O que talvez não seja de todo bom, porque justamente uma das questões que inferioriza o roteiro é possuir uma solução demasiado ocidental para o problema de um dos personagens coadjuvantes ao final do filme - o que se mostra 'simplista' demais para os padrões do Miyazaki. Outro erro é deixar algumas questões que a própria trama julgara serem importantes sem explicação, ou muito em aberto (como o passado de alguns personagens). Felizmente, são questões bem pontuais que não chegam a comprometer, e que são ofuscados por todos os outros elementos dessa obra que são maravilhosos.     



O Castelo Animado

De quem? Hayao Miyazaki
De onde? Japão
De quando? 2004
Tem na Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆☆☆




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ESPECIAL MIYAZAKI - Princesa Mononoke



"Princesa Mononoke" é um filme que dialoga muito bem com o "Nausicaä - Do Vale dos Ventos", sendo uma evolução natural de tudo que Miyazaki já havia abordado ali. É, talvez, a obra mais madura do cineasta em relação a sua preocupação ambiental e ecológica. Na trama, um jovem viajante a procura de uma cura para sua maldição acaba se vendo no meio de uma guerra entre um vale e uma floresta mágica. De um lado, a gananciosa Lady Eboshi, dona da refinaria de metais, que invade a floresta para pegar seus recursos naturais. Do outro, Mononoke, uma menina que foi criada com os lobos, e que tenta a todo custo proteger tanto os animais quanto o misterioso... 'espírito ancestral da floresta'.





Miyazaki trabalha na rivalidade entre as duas mulheres a irracionalidade da guerra, e como o conflito empurra os seres humanos a revelar o pior de si mesmos. Em outra situação, Eboshi e Mononoke poderiam ter sido amigas, ambas as personagens são muito semelhantes. Mononoke, apesar de ser a heroína, é fortemente alimentada pelo rancor cego que tem dos seres humanos, a ponto de sequer ver a si própria como uma. E Eboshi, apesar de ser a vilã, não é apresentada de forma maniqueísta pelo roteiro - antes pelo contrário, em sua refinaria ela emprega mulheres que estariam destinadas à prostituição em bordéis. Ambas as personagens são defensoras de sua gente e agem fazendo o que acham ser o melhor para seu povo. Se há um tema principal em 'Princesa Mononoke' que subjugaria a questão ambiental seria sobre como o nosso ódio interno nos amaldiçoa e nos transforma em monstros.




Não à toa, é o filme mais violento e com mais sangue do Hayao Miyazaki. O cineasta se aproveita da temática medieval e faz cenas que podem vir a assustar um público mais pequeno (com direito, inclusive, à decapitações e membros sendo decepados). Algumas cenas na floresta com seus milhares de fantasmas com cabeça de chocalho, também causam uma sensação incômoda. Pode ser uma interpretação demasiado ocidental da minha parte, mas me remete a ideia dos inúmeros seres que viviam ali e que perderam sua vida nas mãos dos humanos. Me faz pensar no que estamos fazendo com nossas matas e com o nosso mundo.





Princesa Mononoke

De quem? Hayao Miyazaki
De onde? Japão
De quando? 1997
Tem no Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆☆☆



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terça-feira, 16 de junho de 2020

COMBO SPIKE LEE - "Ela Quer Tudo", "Rodney King" e "Destacamento Blood"



Aproveitando que "Destacamento Blood", o mais novo filme do polêmico cineasta Spike Lee, estreou na Netflix, vou falar também sobre outras obras do diretor que se encontram no catálogo da plataforma: "Ela Quer Tudo" e "Rodney King".

"Ela Quer Tudo" foi o filme de estreia da sua carreira, e é um estudo de personagem sobre uma garota nova-iorquina negra que acaba sendo julgada por seus parceiros, apenas por querer ter a mesma vida de sexo casual sem compromisso que muitos homens possuem. A proposta do longa é boa e ousada, ainda que o roteiro seja meio verde - os questionamentos, as dúvidas, as exigências que a protagonista faz a si mesma, bem como o próprio 'polígono amoroso' que se forma, poderiam ter sido melhor desenvolvidos. As atuações também são bem limitadas. 

Mas a direção do Spike Lee já denota algum talento meio bruto a ser refinado. E já fica bem evidente aqui a sua paixão pela cidade de Nova York, e pelas pequenas e diferentes figuras anônimas que a compõem (lembrando um pouco o início da carreira do Scorsese). Funciona mais como um exercício de ensaio do estilo que o cineasta viria a adotar daqui para a frente.




Ela Quer Tudo
De quem? 
Spike Lee
De onde? EUA
De quando? 1986
Tem na Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆




Já quanto à "Rodney King", de fato, sua classificação como filme pode ser sujeita a discussão, haja vista que esse média metragem de cinquenta minutos é um monólogo teatral filmado. Mas a intensidade cênica de Roger Guenveur Smith é indiscutível. 

Em sua apresentação, o ator narra/atua a história de Rodney King, operário de construção civil negro que em 1991 foi espancando brutalmente em Los Angeles em uma batida policial - ocasião na qual, segundo a perícia, levou de 53 a 56 golpes de cassetete - e toda a reação social que o incidente teve, mais especificamente a onda de violência e morte que se seguiu. 

O artista transpira - literal e metaforicamente - a loucura e a agonia de se viver em uma sociedade marcada pelas tensões raciais, um caldeirão de ódio reprimido que parece bastar uma fagulha para explodir. É uma obra formalmente simples, mas cujas histórias narradas - bem como a sensação de que nada mudou nesses trinta anos - acompanham o espectador de forma... sufocante.




Rodney King
De quem? Spike Lee
De onde? EUA
De quando? 2017
Tem na Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆☆☆




Por fim, o mais novo filme de Spike Lee não poderia ter saído com um 'timing' mais perfeito. Sendo um cineasta que sempre trabalha a questão racial em seus filmes, o diretor volta o olhar em "Destacamento Blood" para a forma com que a sociedade norte-americana se utilizou da guerra do Vietnã para - dentre outras finalidades questionáveis - fazer uma espécie de 'varredura' da população afro-americana. Não satisfeito com isso, o diretor acompanha às consequências que o conflito teve na psicologia de quatro veteranos negros que voltaram do combate, em especial na de Paul (vivido com competência por Delroy Lindo).





Entretanto, arrisco dizer que se "Destacamento Blood" tivesse se mantido como um filme sobre o conflito, talvez ele fosse mais focado, e até mesmo mais incisivo no que ele teria a dizer. Spike Lee - um cineasta que desconhece sutilezas - atira para tudo quanto é lado aqui, e o resultado acaba sendo meio dispersivo. A verdade é que a trama dos quatro companheiros no presente buscando o 'tesouro enterrado' cativa pouco, e os seus personagens são pouco carismáticos. A direção visual de Lee permanece com seu padrão de excelência habitual, mas o roteiro peca pelo excesso de conveniências, e por sabotar o efeito surpresa de algumas cenas ao deixar meio óbvio que... 'algo irá acontecer'. A longa duração do filme, também, não se justifica.

Mas no fim, ainda fica aquela sensação de mensagem positiva e de intenção digna na forma com que Spike Lee 'prega' a necessidade da comunidade negra de se manter unida frente às adversidades, e de como a política do homem branco foi psicologicamente destrutiva para ela. Mas não deixa de apresentar uma certa queda após o bem superior "Infiltrado na Klan".




Destacamento Blood
De quem? Spike Lee
De onde? EUA
De quando? 2020
Tem na Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆




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quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ghost - Do Outro Lado Da Vida



Se tornou quase lugar-comum encontrar pessoas depreciando e não dando o devido crédito a “Ghost – Do Outro Lado da Vida”. Seja pelo seu romantismo excessivo, seja pelas suas inúmeras reprises na Sessão da Tarde, o fato é que hoje a película é constantemente subestimada e, até mesmo, tripudiada por um bom número de pessoas. Uma pena, porque este jovem clássico dos anos 90 esconde por trás das declarações e das lágrimas um roteiro muito bem amarrado, personagens extremamente cativantes, e uma emoção genuína que o tornam um drama romântico bastante acima da média do que se costuma ver sendo produzido no gênero por aí.

Embalado pela inesquecível ‘Unchained Melody’, “Ghost” conta a história de Sam (Patrick Swayze), um jovem bancário que descobre uma fraude no banco em que trabalha e, por conta disso, acaba sendo assassinado. Inconsolada, sua noiva Molly (Demi Moore), passa a receber o apoio questionável do amigo do casal Carl (Tony Goldwyn), sem saber que o espírito de Sam permanece constantemente tentando entrar em contato com ela. Desesperado, Sam recorrerá a estelionatária Oda Mae Brown (Whoopi Goldberg) que, por algum motivo, consegue escutá-lo.






Ghost” é um filme que em alguns momentos realmente beira à pieguice, mas sem ser meloso (e para os que o acusam disso, recomendo assistirem à “Além da Eternidade” do Steven Spielberg, feito um ano antes, e verem de fato o que É ser meloso!). Talvez o que ajude ‘Ghost’ a respirar melhor é a habilidade do diretor Jerry Zucker em flertar com outros gêneros, mas sem destoar em tom e sem perder a sua essência. Assim, para cada declaração de amor impossível de Sam a Molly, temos algum desdobramento na investigação efetuada pelo fantasma, ou algum alívio cômico concentrado na figura de Oda Mae Brown, elementos que equilibram a jogada.

Todavia, é fato que se o público tiver uma predisposição maior a romances vai apreciar “Ghost” muito mais, pois este necessita da total imersão emocional do público para funcionar. Temos que sentir junto com Molly a profunda dor de ter seu amor perdido, e o sentimento de Sam de cuidado e proteção para com Molly que perdura mesmo depois de sua morte. Para o público que permitir se entregar às intensas emoções a experiência é certamente mais recompensadora (chegando a ser difícil, inclusive, reter as lágrimas no final de sua projeção). Mais do que simplesmente contar uma história, “Ghost” é um filme feito para evocar sentimentos em quem o assiste. E não é esse afinal o papel do bom Cinema?





Demi Moore com sua delicadeza natural e sua voz levemente enrouquecida (e sua incrível capacidade de chorar em praticamente qualquer situação mantendo o rosto inalterado), transmite o luto estarrecedor de Molly de forma particularmente tocante. Whoopi Goldberg está impecável no papel da trambiqueira Oda Mae Brown (apesar de eu acreditar que o Oscar que a atriz recebeu foi uma forma de recompensa-la pelo absurdo de não ter ganhado em “A Cor Púrpura”). Curiosamente, a performance de menor destaque de “Ghost” é mesmo a de seu protagonista, que traz o galã Patrick Swayze em uma atuação apenas competente, sem comprometer o longa, mas nada extraordinária.

Envelhecendo apenas no que tange aos efeitos especiais (que, embora hoje pareçam coisa de Chapolin Colorado, eram inovadores para a época), “Ghost – Do Outro Lado da Vida” é sim um filme que merece uma revisitada mais atenta nos dias de hoje, e, de preferência, com a sensibilidade e a visão madura de alguém que entende e respeita a força de um amor e a terrível dor de uma perda. Se por acaso você chegar ao final de “Ghost” sem se emocionar, então lamento, mas há algo de tremendamente errado com sua capacidade de empatia humana.


Ghost - Do Outro Lado da Vida

De quem? Jerry Zucker
De onde? EUA
De quando? 1990
Tem na Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆☆




Na dúvida, assista o trailer:



terça-feira, 9 de junho de 2020

ESPECIAL MIYAZAKI - Porco Rosso




Miyazaki começou sua carreira no desenho como projetista de aviões e, não à toa, aeronaves geralmente desempenham cenas importantes em seus filmes. Ele até já havia feito um filme com temática aérea antes - o espetacular "O Castelo no Céu" - mas até então ele nunca tinha descido tão a fundo no tema, a ponto de explorar a própria engenharia aeronáutica em si. "Porco Rosso - O Último Herói Romântico" é o primeiro filme em que ele faz isso (e ele voltaria novamente a essa seara no futuro em "Vidas ao Vento").

Na trama, Porco Rosso é um velho piloto de avião italiano do entre-guerras, que por conta de uma misteriosa maldição teve seu rosto transformado no de um porco. Ele sobrevive fazendo pequenos resgates e tentando lutar contra uma trupe de piratas aéreos. A ditadura de Mussolini tenta inclui-lo em suas fileiras, enquanto que os piratas contratam um galante aviador americano para derrotá-lo. Nesse meio tempo, no entanto, Porco precisará reconstruir seu avião, e contará com a ajuda de uma jovem engenheira de 17 anos.





Em termos de direção, Miyazaki se permite ser mais ousado do que já fora até então. São cenas como o teste de RPM da hélice (no qual o animador trabalha o efeito do vento que quase faz o hangar levantar vôo), das paisagens correndo rapidamente sob o avião, ou até mesmo a cena em que Porco vai ao cinema assistir... uma animação (com estilo distinto do filme ao qual ela está inserida), que atesta a qualidade do traço desse cineasta e da atenção dele aos detalhes. Já narrativamente o longa-metragem talvez não seja mesmo um dos mais atraentes de sua filmografia, e seu desfecho quase inconclusivo pode até vir a incomodar, mas ainda assim o roteiro tem pequenos arroubos de simbologia (o rosto do protagonista, na verdade, talvez seja a forma desprezível com que ele mesmo se vê, o sentimento de culpa por não ter conseguido salvar um amigo). E talvez seja o único filme do Miyazaki que conta com uma opinião política expressamente formada: "Prefiro ser porco a ser fascista."




E novamente Miyazaki explora sua tendência feminista em construir mulheres fortes. A pequena Fio não se intimida com as adversidades, o preconceito e o desdém expressado por praticamente todos os personagens homens do filme, e não só projeta o avião nos mínimos detalhes, como também convoca uma legião composta exclusivamente só por mulheres para construí-lo. O próprio protagonista é apresentado como sendo um sujeito misógino no início da trama, apenas para isso ser quebrado aos poucos à medida que sua estima pela garota vai aumentando. Uma relação paternal, quase que de pai e filha, ou quando muito de professor e aluna, em que a aluna acaba tendo muito mais a ensinar, do que o próprio professor. 

"Porco Rosso" vem para confirmar aquela máxima de que até mesmo o menor filme de um grande diretor autoral tem algo de rico a ser extraído. Dentro de uma filmografia que inclui outras obras-primas, é natural que ele fique mesmo um pouco à sombra. Mas isso não quer dizer que ele não faça jus ao conjunto a que pertence. Um Miyazaki subestimado.




Porco Rosso - O Último Herói Romântico

De quem?  Hayao Miyazaki
De onde? Japão
De quando? 1994
Tem no Netflix? Sim!!!
Minha avaliação: ☆☆☆☆




Na dúvida, confira o trailer: